terça-feira, 13 de agosto de 2013

Bonecas ao vento


Desde que nasci, cresci vendo uma boneca de louça com seu corpo feito de pano, toda molarenga, que só queria dormir. Seu nome: soneca. Essa boneca sumiu dando lugar a outra de borracha, que seria uma enfermeira com chapéu da cruz vermelha. Jogava de um lado para o outro, mas vivia abraçada nela. Fui crescendo e ganhei uma de plástico comprada na feira, mas foi tomada pela afilhada da minha mãe que queria a boneca de qualquer jeito. Logo me deram uma que quando apertava os bracinhos, apagava as velinhas. Nunca risquei minhas bonecas com caneta; tinha muito cuidado para não quebra – las. 
E fui colecionando muitas bonecas: a tagarela, que só falava; o bebê, que urinava; a boneca Pedrita, que todas as meninas ganhavam.

O tempo foi passando e a poeira tomou conta delas. E, por mais que eu desse “banho”, já haviam perdido o brilho de quando as ganhei. Mas, por mais que o tempo passe e leve da minha memória – como um vento – os rostos das minhas bonecas, jamais esquecerei.

sábado, 10 de agosto de 2013

Não fui... Não sou... Nunca serei...


Na época de colégio, na antiga Biblioteca Pública Francisco Patti, no bairro da Lapa em São Paulo, estudantes participaram de uma palestra e quem esteve presente foi Bruna Lombardi, falando de seu livro de poesias. Mais tarde no trabalho em uma produtora de vídeo, vi diversos famosos, mas surgiu a oportunidade de conversar com Eva Wilma*, e falei sobre seu filho que estava estudando na mesma faculdade que eu, a ESPM. Na exposição dos 50 anos de Fernanda Montenegro, no Sesc Pompéia, conversei com John Herbert  
(em memória).
Paulo Goulart, recentemente sentado na poltrona de uma loja num shopping é muito simpático. Agnaldo Timóteo perto de um hotel na Avenida São João há anos atrás; Moacyr Franco na esquina perto de casa, pedindo informações. Gente como a gente, porém famosos, porque quem os vê, jamais esquece.
(*) Completa 60 anos de carreira.

Tecnológica


Priscila acordou com seu celular na mão, presente de seu pai no último Natal. Passou a noite em claro porque ficou enviando mensagens e torpedos.
- Não vivo sem meu celular – disse para mim um dia.
Custou a levantar da cama, e no banho quase deixou cair o celular dentro da pia ao escovar os dentes. Outras pessoas deixam cair o celular dentro da privada ou da banheira. Incrível...
Café e escola. Arrumou a mochila, não esquecendo o carregador da bateria do celular, sendo que seu pai comprara diversas vezes uma bateria de reserva, mas ela perde. Com isso, aproveita a energia “retirada” da sala de aula. Seus amiguinhos que ela chama de lerds* dão um jeito e não deixam que a professora perceba.
Pede para seu pai comprar a revista infotecnic para ver os lançamentos que acontece a cada dia. Sobra tempo para ouvir no ipod, as músicas que ela mesma faz o download dos sites da web e usa o tablet do pai, que compra para ela ler, os chamados e- books. Ela já teve um tablet, mas quando caiu no chão, quebrou a tela de LCD e fez aquela “melequeira” por causa do líquido que tem dentro, e ainda gritou:
 
- Pai, o tablet tá na garantia?

Acho esquisito quando ela deixa entre os lápis, borracha e canetas, o pente de memória, que o pai deu para ela guardar de lembrança. Ela é engraçada, mas é a minha melhor amiga.
Só sei que ela espera ganhar no próximo Natal, um notebook, mas tem que ser em 3D, porque todos os desenhos e filmes que assiste, usa seus óculos, se sentindo na era espacial.
(*) Usam conexão de baixa velocidade, e por mais que você paga por velocidade, mais a conexão fica lenta ou dizem que é excesso de pessoas usando a rede. Quando não trava, cai.

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Tic Tac


Meu pai tinha muitas fazendas no interior de Goiás, e com a queda da bolsa de valores, perdeu todos seus bens. Assim como muitos, outros se suicidaram.
Pelo desgosto e com depressão, meu pai adoecera e veio a falecer. Minha mãe ficou com quatro filhos para criar. Gostava de cuidar dos jardins da casa da fazenda, mas precisou trabalhar com costuras, e bordadeira de mão cheia como era, sustentava os filhos.
Eu era o filho mais velho com 19 anos de idade. Fui trabalhar também. E as regalias que tive a mais do que meus outros irmãos em se tratando de estudos, comecei a trabalhar num escritório de contabilidade do amigo de meu pai. Tinha a caligrafia e datilografia, o que muito me ajudou. Pretendia ser advogado.
Minhas duas irmãs trabalharam de faxineiras em casa de família, mas conhecidas no povoado da fazenda, casaram – se com ricos fazendeiros e estão bem até hoje. Eu, minha mãe e meu irmão caçula, deixamos a casa da fazenda e fomos morar numa outra cidade, no interior mesmo de Goiás. Logo casei e fui trabalhar com meu sogro, que tinha um empório. Minha mãe cuidou do meu irmão caçula que pegou uma meningite e veio a falecer. Ela morreu de velhice.
Já não tenho mais, a lembrança que ficou em todos esses anos, do Tic Tac do relógio pendurado na parede da sala de jantar da casa da fazenda. Morri por causa de um enfarte.
Como meu pai, deixei mulher e filhos.
- O que se pode fazer? A vida termina para todos, seja rico meu pai foi, seja pobre como eu fui.



segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Massinha de modelar



Cheguei da escolinha da Tia Sílvia e sabia que naquela tarde tia Raquel, irmã da mamãe viria tomar um café com a gente. Papai trabalhava na fábrica.
Adoro as tardes de café com tia Raquel. Nossa mesa não costuma ser farta, como mamãe fala para mim.
- O que é farta mamãe?
- É quando a gente tem muita coisa para comer.
Agora entendo que quando tia Raquel chega mamãe fica contente.
Estica a toalha na mesa, coloca as xícaras e talheres, ajudo a colocar os guardanapos e chega tia Raquel com o bolo, a geleia, pão doce, queijo, pão fresquinho e o salame que tanto gosto.
Para divertir aquela tarde, peguei minha massinha de modelar e transformei – a numa lagartixa que ficou igualzinha. Coloquei atrás da garrafa de café e quando tia Raquel a pegou a garrafa, deu um grito, se assustou, mas viu que era uma brincadeira e começou a ser rir. Demos muitas gargalhadas no resto daquela tarde.

Esboço


Nós mulheres parecemos não aceitar mais os corpos em que nascemos. Colocamos silicone e botox.
Como diz o ditado: “Cada um faz do corpo o que bem entende.” Isso deve – se à modernidade com o avanço da medicina e lógico, a vaidade. Mas a história aqui é outra.
Meu avô Tinoco, conhecido fazendeiro do interior de Minas, tem como hobby pintar e esculpir. Ele não precisa, mas ganha uns trocados vendendo o que produz. São coisas que a gente conhece das feiras de artesanato: santos, vasos, figuras da região, feitos de material em argila, tirada da própria fazenda.
Os quadros são pintados com motivos de paisagem, o que ele mais gosta. Foi daí então que peguei o gosto pelas artes, e nas férias, passamos juntos, pintando e esculpindo formas. Vó Deolinda fica com seus afazeres na cozinha.
O que me atrai na fazenda, é um dos quartos da casa, sempre bagunçado com coisas antigas: móveis, relógios quebrados, bisnagas vazias de tinta e desenhos guardados numa caixa de madeira. Comecei a ver cada um deles, e o que me chamou a atenção foi o desenho do corpo de uma mulher.
Cheguei perto do meu avô e mostrando o esboço, perguntei quem havia servido de modelo, no qual respondeu:
- Sua avó Deolinda.

sábado, 3 de agosto de 2013

Era uma vez um gato.


Gato bonito
Só dava trabalho
Sujeira no quintal
Pulava no telhado.

Gato safado
Andava atrás de rato
Virava lata de lixo
No quintal só tinha mijo.

Gato sumido
Quem achar este gato
Tá sendo procurado
Esse gato é danado.