quarta-feira, 23 de julho de 2014

Picasso pintou Modigliani

Saí da aula sobre a história da arte onde a professora divagava entre a imponência de Picasso e a poesia de Modigliani.
Sem desprezar Modigliani, realmente Picasso para mim, era o mestre. Todos em particular eram geniosos, de personalidade forte.
Quando vi a Bia desenhar, perguntei que rabiscos eram aqueles.
- Modigliani – me respondeu.
- E você Leila tá desenhando o quê? Um cavalo?
Bem, não era um cavalo que eu desenhava, mas também não era um... Modigliani. Na hora em que a professora ficou de pé ao lado da minha mesa me dizendo que o desenho que fiz estava bonito, foi nesta hora que comecei a me interessar pela arte. Estudei os grandes gênios da pintura como Monet, Degas, os brasileiros Edi Cavalcante e Tarsila do Amaral. Agora entendo por que Picasso pintou Modigliani. Coisas de gênio!

terça-feira, 1 de julho de 2014

Adélia

Adélia tinha seu cabelo todo espetado.  Assim que chegava à escola, as coleguinhas de classe riam da sua cara. 
- Lá vem Adélia com cabelo de vassoura piaçava. Adélia ficava toda desajeitada. Não sabia por que seu cabelo ficava daquele jeito.
- A mãe de Adélia contou que ela escova os cabelos todos os dias, que não sai da frente do espelho – disse Alice para a Berenice.  Mas um dia, tudo isso teve um fim. A mãe de Adélia a levou em um salão de beleza. Contou para a cabelereira o que se passava com Adélia na escola.
- Deixa de besteira dona Teresa.  Adélia vai sair daqui feito uma princesa.
Adélia não queria mudar o corte do seu cabelo. Gostava dele daquele jeito, espetado como um espeto. Mas também, não gostou quando disseram que parecia um porco espinho com aquele cabelo todo espetadinho. 
E Adélia cortou o cabelo. Com o cabelo de lado, ela achou engraçado, mas com a franja na testa, disse a todos que estava pronta para festa, que a tia Roberta daria, porque Adélia concordou em cortar o cabelo e acabar com toda aquela zombaria na escola. 

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Dois irmãos

Meu irmão Flávio chegou à nossa casa dizendo ter passado da casa dos irmãos Ronald e Diana para fazer uma visita. Realmente, há muito tempo não víamos os dois irmãos. Eu mesma passei muitas vezes por lá e ficava a tarde toda conversando com eles. Diana foi minha colega do ginásio ao colegial. Foi no vestibular que nos separamos. Eu optei pela área de humanas e ela queria medicina. Disse que queria ser médica neurologista, para cuidar melhor do pai que se encontrava com o Mal de Alzheimer, prometendo até descobrir a cura para essa doença tão ingrata, que gera graves transtornos à vida da pessoa trazendo sofrimento. Passou quatro anos de sua vida tentando passar no vestibular para medicina, mas o que conseguiu foi se formar como advogada. Seu pai - coitado - acabou mesmo, morrendo de dengue hemorrágica. Como a vida é engraçada.
Flávio, disse ter batido várias vezes à porta da casa e soubera através de vizinhos, que os dois irmãos não moravam mais ali, e que dona Veridiana mãe deles, havia falecido recentemente. Não fiquei contente com toda essa história. Fui lá pessoalmente num horário quase a tardezinha. Toquei a campainha e ninguém atendeu. O número do telefone – que eu havia tentado ligar por diversas - ninguém atendia. Esse número de telefone ficou durante anos na minha memória, também, era igual ao de casa, era só inverter os dois últimos números.
Cheguei à casa dos dois irmãos. Parecia abandonada.
A garagem toda empoeirada, estava cheia de
correspondências, folhetos de supermercado, pizzaria, jornal e revista do bairro. Lembrei – me de dona Veridiana. Ela, nunca aceitaria uma situação dessas, de completo abandono. Varrendo todo o tempo, deixava a casa sempre limpa. Num gesto impensado, coloquei a mão na maçaneta do portão. Estava revoltada com o que vi, e para minha surpresa, o portão se abriu. Outra coisa era o portão sempre trancado. Dona Veridiana tinha medo de ficar sozinha e zelava pela segurança dela e da casa.

Repeti o gesto na porta de entrada. Ela se abriu e encontrei uma casa vazia. Baratas andavam vagarosamente pelo chão da sala. Havia cheiro de mofo e esgoto por toda a casa. Papéis amassados outros rasgados, via – se que ninguém ia lá há algum tempo. Deu para ver que eram folhas de caderno e livros.
Abri a porta do quarto em que eu lembrei ser de Diana. Confidências foram trocadas ali entre mim e ela na nossa adolescência. Olhei para o chão. Estava repleto de fotos, e a primeira que eu peguei foi justamente aquela em que estávamos eu, Diana e Ronald. Fo tirada na festa de aniversário dela, quando fez dezoito anos. Levando – a comigo sobre o peito, encostei a porta. Senti naquele instante que meus olhos estavam cheios de lágrimas.
Contei o que vi para o Flávio, e disse:
- Vamos à delegacia, precisamos de respostas. Parece que ninguém sabe de nada. Não conhecemos nenhum parente?! Tem aquela prima dela, mas não sei onde mora. Fica difícil saber o que realmente aconteceu.
No dia seguinte antes de ir para o serviço, Flávio passou enfrente à casa dos dois irmãos, quando viu uma placa supostamente colocada pela imobiliária. A casa estava à venda. Ele pegou o celular e na mesma hora disse ter ligado para a imobiliária.
Soubemos que os irmãos foram para o sul da Inglaterra, por conta de uma herança onde ficariam milionários, e assim não voltariam para o Brasil.
- Pois é, good bye, bye, bye – dissemos eu e Flávio ao mesmo tempo em que caímos na gargalhada.

quarta-feira, 30 de abril de 2014

Historinhas do blog


Leia e divirta - se!

Vitoriosa

Desde criança os pais de Fabíola levavam - na para passar as férias escolares na praia da Enseada no Guarujá, litoral de São Paulo.
Os tios Alfredo e Mariana adoravam quando Fabíola chegava toda alegre vestida no seu maiô preto de nadadora. Saia do carro, e a primeira coisa que falava:
- Vamos nadar?
Fabíola nem sabia nadar direito e o mar sempre foi um lugar perigoso. Mas foi no mar que ela aprendeu a dar suas primeiras braçadas. Tá certo que uma vez ela quase se afogou. Bateu uma onda muito forte virando Fabíola de cabeça para baixo. Se não fosse eu estar perto dela  e agarra – lá, nem sei...
Ficamos um bom tempo sem nos vermos, e Fabíola não procurou saber como eu estava. Sabia a respeito dela indo algumas vezes ao apartamento dos tios Alfredo e Mariana. Era assim que os tratava carinhosamente, como se fossem meus tios.
Mas, voltando a falar do tempo, muitos anos se passaram. Fiquei noiva e me casei. Meus pais foram morar na capital e eu fiquei aqui mesmo, morando no Guarujá.
Grávida do meu primeiro bebê, nesta mesma época, Fabíola reapareceu. Era quase uma mulher. Lembrei-me de quando íamos tomar sorvete no centrinho. Fabíola era uma menina mimada.
Soube que sua mãe, dona Odete, morrera de doença grave, e devido à enfermidade não pudera comparecer na última competição em que ela bateu o recorde dos 100 metros nado livre, faturando a medalha de ouro.
Fabíola foi campeã por diversas vezes nesta modalidade. Participava de vários campeonatos entre clubes e competições fora do país. Chegou a participar de uma Olímpiada, certa vez.
Tudo isso me contou quando veio me mostrar a medalha de ouro. Coisa mais linda a medalha com fita nas cores azul e branca.
Estávamos na praia quando ela se levantou e encaminhou – se até a beira do mar. Arremessou a medalha com força na água e com raiva também, provavelmente lembrando-se do fato da sua mãe não ter podido ir à competição para vê - la chegar ao primeiro lugar e pedindo naquele instante ao mar, que levasse a medalha para bem longe dali.
Fabíola foi embora. Achei que tivesse compreendido o seu ato.
No dia seguinte, andando a beira da praia, vi algo dourado brilhando na areia. Com uma das mãos, tentei desenterrar para ver o que era. Para minha surpresa, era a medalha de Fabíola.
Lembrei-me dos finais de tarde em que a mãe de Fabíola trazia a filha para dar “umas braçadas” no mar. Mãe zelosa, dona Odete esperava – a com a toalha nas mãos, para poder enxugar os cabelos compridos que Fabíola – eu não sabia como – conseguia enfiar dentro da tôca feita de borracha. Dona Odete nesta época tratava Fabíola como uma campeã. O mar foi e devolveu a medalha parecendo ter visto isso tudo.
Fui até a capital devolver a medalha de ouro pessoalmente à Fabíola.
- Rose, nem sei como agradecer, e obrigada por você lembrar da minha mãe – disse dando – me um forte abraço.
  Hoje, sou mãe de uma menina. Levo minha filha à praia para dar “umas braçadas” no mar, e me lembro de Fabíola, agora uma vitoriosa: pela volta em suas mãos da medalha de ouro e a superação da dor que sentiu, pela perda de sua mãe, dona Odete.


sexta-feira, 25 de abril de 2014

Mohamed

Uma historinha das arábias

Ele chegou ao Brasil com quinze anos de idade. O pai dele, o senhor Mustafá estivera em outras ocasiões na cidade de São Paulo, e foi assim, numa destas visitas, que conheceu Zulmira, mãe de Mohamed. Casou – se aqui mesmo em território brasileiro e levou – a para Riade capital e maior cidade da Arábia Saudita.
Portanto, Mohamed é filho de um árabe com uma brasileira.
Desta vez, o senhor Mustafá, trouxera a família toda. Foi intimado pelos irmãos mais velhos para trabalhar nos negócios da família. Do outro lado do mundo também, a vida do senhor Mustafá não andava muito “bem das pernas”.
Ao chegar aqui no Brasil, Mohamed acostumou – se rapidamente. Cresceu junto com os primos. Os pais dele nem haviam percebido, mas o tempo passou. Mohamed quase adulto quis ser diferente dos primos e amigos que o rodeavam na comunidade árabe, por isso resolveu sair de casa. Como disse Dona Zulmira:
- Para aventurar – se.
As palavras foram muitas, para convence – lo a ficar em casa morando e fazendo vida com os pais. O futuro dele estava garantido, mas nada o fizera mudar de ideia.
Saiu de casa para morar numa pensão logo que arranjou um trabalho de repositor de mercadoria num pequeno supermercado. Resolveu mudar – se para perto do emprego porque facilitaria bastante sua ida e vinda, não precisando tomar conduções lotadas. Dava para ir e voltar a pé.
E foi assim que conheci Mohamed: dentro do supermercado colocando maçãs na prateleira, até cair uma delas no chão.

A maçã rolou por uma ou duas vezes, até eu pega – la do chão e entrega - la nas mãos de Mohamed.
- Obrigado.
Agradeceu – me, colocando a maçã delicamente no lugar como se fosse uma pedra preciosa. Antes que me desse às costas, observei o rosto dele. Os olhos de cor preta, a pele da cor de um moreno diferente. Li o nome escrito no crachá.
Institivamente pronunciei:
- Mohamed.
- Pois não!
- Quem te deu esse nome?
- Meu pai – respondeu – me secamente, dando – me as costas novamente, para continuar o seu trabalho na prateleira.
No outro dia, ele estava lá.
- Bom dia, Mohamed.
- Bom dia senhorita.
Como é gostoso pronunciar esse nome, pensei.
- Morraamed – disse em voz alta.
- Pois não senhorita.
- Não é nada – respondi.
Arrisquei dizer:
- Não vai me dizer que você veio das arábias...
Ele riu e me disse:
- Eu vim das arábias sim, mas é uma longa história.
Percebi o sotaque de árabe, que soavam aos meus ouvidos como um som agradável. Lembrei-me da cidade de Bagdá, as historinhas de Ali Babá, Sherazade e as Mil e Umas Noites e então me engracei.
Ficamos um bom tempo sem nos vermos até que um dia entrei na lanchonete ao lado do supermercado. Mohamed estava sentado numa das mesas com o cardápio nas mãos. Como a lanchonete estava lotada, assim que ele me viu, me convidou para sentar à mesa junto com ele. Pedimos dois sucos e X- burgers.
Entre perguntas e respostas, compreendi toda a sua história, sempre me chamando a atenção, o sotaque dele.
Para minha surpresa, ele perguntou:
- Gostaria de aprender o alfabeto árabe?
Sem ter como negar e aprender nunca é demais, aceitei.
- Aprender não só idioma árabe, mas outras línguas aproximam os povos, faz conhecer gente – me disse.
Encontramos - nos por diversas vezes na lanchonete.
 No final das aulas ele me contou que o sonho dele é de ser um calígrafo, e os que os pais dele com isso, ficarão orgulhosos... 

segunda-feira, 24 de março de 2014

Castigo dos deuses


Era mais um dia de aula onde estudávamos sobre a história da mitologia grega quando Fabiana virou - se e me disse que havia uma ”coisa” grudada no meu nariz. Achei que fosse brincadeira e não me importei, pois prestava atenção na aula.
- E é vermelha – ela me disse.
Quando cheguei à minha casa, minha mãe disse a mesma coisa:
- Filha, que “coisa” é essa no seu nariz?
Joguei a mochila sobre a cama e fui ao banheiro me olhar no espelho. Tinha aspecto de uma bola, grande e feia: era a minha primeira espinha.
- Bem na ponta do nariz! – e me pus a chorar porque meu nariz estava inchado e vermelho. Logo começou a doer. Apareceram muitas outras espinhas no meu rosto. Ficava com vergonha de ir à escola. Meus amigos ririam da minha cara.
Mamãe havia dito que era por causa da puberdade, uma coisa normal, mas tinhamos que tratar. Levou – me à dermatologista, médica que cuida da pele da mamãe. Chegamos ao consultório e nunca tinha ido a uma consulta na dermato.
Doutora Marília me disse para que eu evitasse o chocolate:
- Mas eu adoro chocolate!
Que eu também evitasse comer salgadinhos, frituras.
- Mas eu adoro as coxinhas da cantina da escola...
E que eu tomasse muita água e evitasse pegar o sol forte do meio – dia.
- Oh, não! Isso é castigo dos deuses – falei.
- Angélica, até você ficar melhor. Faça o tratamento: lave bem o rosto com sabonete, use a loção de limpeza e passe o protetor solar, tá tudo escrito nesta receita médica. E o mais importante: não esprema as espinhas para não infeccionar e deixar marcas na pele – disse – me a doutora.
- Tá bom - respondi.
Saí do consultório disposta a fazer o tratamento direitinho. E valeu a pena.
Hoje minhas colegas de escola tem inveja da minha pele, assim como a deusa Hera que tinha inveja da beleza de Afrodite, uma das deusas mais belas da mitologia grega.