sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Do outro lado da rua


Vinha o senhor Abelardo com seu andar todo torto caminhando na calçada. Era por volta das 18:30 de domingo quando todos se recolheram da mesa naquela tarde para assistir ao programa Domingão e o quadro Dança dos Artistas. Minha família e vizinhos não perdiam a competição entre as celebridades.
Eu e meu cachorrinho Jolie, ficamos sentados ali mesmo, no lugar onde almocei o frango assado que minha mãe fez. Tia Mafalda trouxe a torta de palmito que eu adoro, e nosso vizinho, o senhor Honorato, junto à esposa, trouxeram o pudim e o vinho, que meu pai degustava e rodando a taça dizia que o vinho é a “bebida dos deuses”. Almoçávamos fora todos os domingos. Que eu digo fora, é na calçada de casa mesmo.
Sorvete de chocolate e creme, completava meu domingo.
Mas algo aconteceu naquele final de tarde. E mais outros domingos se sucederam com o mesmo fato. Tentei eu mesma resolver, pois se comentasse com alguém o que via, apenas diriam que eu estava ficando louca.
Nem com o senhor Abelardo eu comentei, mas para minha surpresa percebi que ele viu o que também vi durante vários finais de tardes de domingo.
Mas só de domingo? E sempre àquela hora em que todos se recolhiam para dentro de suas casas? Estranhei.
É a respeito de um salão de danças que existia numa velha casa agora meio que abandonada do outro lado da rua, enfrente a minha casa. Encontrava -se fechada por mais de quinze anos.
Minha mãe, por muitas vezes recolheu correspondências como cartas, boletos e extratos bancários, contas de água e luz, jornais e panfletos de ofertas de supermercado que jogavam quase toda a semana.
Ela dizia:
Eu recolho para não parecer uma casa abandonada.
Mas é uma casa abandonada, mãe. Ninguém entra nem sai há anos. – dizendo isso para que eu mesma pudesse me convencer do contrário, porque o que eu via nesse momento, a casa não parecia abandonada.
Mas voltando à mesa onde todos se retiraram e eu ficando só com meu cachorrinho Jolie, assim que o senhor Abelardo passou, fui à casa ver com meus próprios olhos, mais de pertinho mesmo, pois não acreditava no que via.
Pessoas chegavam ao portão da casa em todas as vezes, dançando, mas agora mais de perto, pude ouvir a música tocada ao fundo que me pareceu ser um charleston, onde assim fez sentido todo aquele movimento agitado dos dançarinos, que pareciam mais eram suas roupas estarem cheias de pulgas. Falavam e gesticulavam o tempo todo e discutiam algo.
Correndo para casa, me joguei no sofá. Jolie veio atrás de mim e quase tropecei nele.
- Vem Jolie, já pra casa – ordenei.

Fiquei apavorada.
Minha mãe e tia Mafalda torcendo para a atriz da novela das 6 horas ficar em primeiro lugar e levar um carro como prêmio, disse a mim mesma:
- Porquê não fiquei em casa?

Segunda – feira precisaria de coragem para ficar pronta de manhãzinha, para que quando a van viesse me buscar para ir à escola, era meu único pensamento.
Café tomado e um rápido beijo da minha mãe quando passou pelo corredor de volta à cama dela para dormir mais uns minutinhos. Esperei a van chegar sentada no jardim. Não poderia me atrasar, senão a dona Natália a dona da van - apressadinha do jeito que ela é - buzinaria sem parar, acordando todo mundo e daí viria a reclamação dos vizinhos.
Surge o senhor Abelardo, cabelo molhado, de banho tomado carregando sua marmita embrulhada num pano de prato, marmita essa feita pela cozinheira do bar da esquina – pressuposto - disposto a trabalhar, após anos estar desempregado.
- O coitado não fica em emprego nenhum por causa da bebida - comentou minha mãe uma vez.
Cumprimentei o senhor Abelardo com um breve sorriso:
- Bom dia, senhor Abelardo, tudo bem?
- Bom dia menina.
- Tô eu aqui esperando a van da escola.
- Você viu a festança de ontem? “Tava” de arromba.
Quando eu ouvi ele dizer isso, até tossi! Dei risada quando ouvi a palavra “arromba”, tão antiga aos meus ouvidos….
- De arromba, eu não sei mas o almoço de domingo estava gostoso.
- Não é do almoço que estou falando, é da casa enfrente à sua – apontando para o outro lado da rua.
- Como assim? - me fazendo de desentendida - essa casa está fechada há anos.
- Imagina fechada! E que festança – repetiu.
A van chegou e dei um breve tchau.
- Depois nos falamos senhor Abelardo.
- Bom estudo, menina.
De fato toda essa conversa me deixou intrigada, mas fiquei para entender essa conversa no dia seguinte quando o senhor Abelardo passaria pela manhã.
- Bom dia senhor Abelardo, gostaria de falar sobre a conversa de ontem.
- Bom dia Deise.
- O que o senhor vê é o que eu vejo dentro daquela casa? - perguntei.
- O que você vê naquela casa?
- Pessoas que falam e dançam parecendo se divertir – era o que eu achava.
- Sim, mas reparei que não passam do portão pra rua. Ficam sempre dentro da casa.
- É, o portão parece estar emperrado, então voltam lá pra dentro. Então disse:
- Fantasmas.
- Do outro lado da rua? - admirou - se.
- Esta casa encontra – se fechada há anos. Os donos não moram mais aí. Minha mãe me contou que nesta casa existia um salão de dança, mas tem uns quinze anos. Morreram pessoas aí dentro por causa de uma explosão num botijão de gás – ao dizer isso, engoli seco.
- O que você está me dizendo, menina...
- É isso, morreram o professor e a esposa que viviam e davam aulas de dança e alguns alunos. Minha mãe vira e mexe ouvia o som do charleston, sabe aquela dança da década de 20: tã tã tã tã – e gesticulando os dedos para o ar para que ele entendesse o ritmo da dança do qual eu falava.
- Tá, tá menina. E você acredita em fantasmas?
- Eu, bem... eu não? – respondi com ar de cínica que só eu sei fazer, achando que ele pudesse pensar que sou uma louca, apesar de ele ver o que eu também via.
Bom, acreditando ou não em fantasmas, pensei em tirar essa história a limpo.
Como? Indo no próximo domingo até o portão da casa, depois que todos se recolhessem para assistir a Dança dos Artistas no programa Domingão.
Emfim chegou o dia. Atravessei para o outro lado da rua e dei de cara com o que eu supunha serem fantasmas.
Com o som alto tocando o charleston, aproximaram – se do portão. De pronto e era essa a minha intenção, foi abrir o portão. Todo enferrujado, se via que a lingueta da fechadura estava emperrada, me vi desesperada mas para minha surpresa, o portão se abriu sem que eu fizesse o mínimo esforço.
Lembrei das várias placas de imobiliárias onde ficaram penduradas na fachada da casa e os dizeres de vende – se. Porém a casa nunca foi vendida ou alugada, até onde eu soubesse.
Nosso bairro crescia com empreendimentos de construtoras famosas como a Roberto Dias, mas voltando ao que interessa, ao portão nesse caso:
Consegui, que alívio – dizendo em voz alta.
Não acreditava.
Ao som de charleston, em seus trajes de típicos da época, os dançarinos pareciam agora mais felizes com o que eu acabara de fazer.
Um dos dançarinos passando por mim, me disse:
Obrigado Deise, em nome de todos. Esperamos muitos até você chegar para abrir o portão.
QUASE DESMAIEI... ao ouvir o que ele disse. Então era isso, estavam presos ali à espera de que um dia eu abrisse aquele portão, apenas um simples gesto de atravessar e ir para o outro lado da rua. ME SENTI CULPADA, naquele momento.
- Agora seremos eternos e dançaremos pelo resto de nossas vidas – completou o fantasma.
Acompanhei os movimentos num frenesi em que estavam, até chegarem ao meio da rua e sumirem.
Foi quando eu saí correndo trombando com o senhor Abelardo:
- Onde vai com tanta pressa?
- O senhor viu senhor Abelardo o que eu vi?
- Vi e é por isso que eu bebo – disse dando altas gargalhadas.
Eu, não achei graça nenhuma.
Assim chegou a segunda – feira. Da janela do meu quarto ouvi um barulho e fui olhar. Era um trator que veio demolir a casa do outro lado da rua para construir mais um prédio no nosso bairro.

E não paro por aqui: naquele domingo cheguei em casa, sentei no sofá e minha mãe estava com a tia Mafalda torcendo pela atriz ganhar o carro como prêmio.
- O que é que ela dançou para levar o prêmio?
- Acho que charleston...

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Sob o fogo de um dragão


Era tarde da noite quando disputei mais uma vez a mesa da cozinha com o ferro de passar roupa. Estudava pela manhã e quando chegava a tarde ou logo a noitinha, era cada vez mais difícil ou quase impossível ficar ali apertada no cantinho da mesa, com meus livros, lápis e cadernos.
Dá licença que eu quero passar roupa – pedia minha mãe que eu saísse dali, mas eu teimosa ficava no cantinho da mesa vendo ela passar aqueles montes de roupas.
Via minha mãe esticar por sobre a mesa, o velho cobertor que um dia na cama, agasalhou meu irmão. Assim ela esticava um outro pano branco feito de algodão por sobre o cobertor. Criteriosamente ligava o ferro de passar à tomada e com um copo cheio d’água, ela o enchia até o limite a fim de produzir o vapor necessário para o alisamento da roupa.
Um dia, saí com essa:
Mãe, parece um dragão seu ferro de passar – olhando para ela, e vendo escorrer fios de suor na testa, devido a quentura do ferro.
A cozinha, ficava quente feito uma sauna, mas eu adorava o cheiro do amaciante que vinha da roupa quando ela passava o ferro.
Eram montanhas de roupas que minha mãe lavava além de passar. Carros estacionavam a noitinha enfrente a nossa casa e tocando a campainha, gritavam lá debaixo:
E aí dona Sofia, a roupa está pronta?
Prontinha! — respondia minha mãe, descendo as escadas correndo para pegar os trocados. As roupas eram cuidadosamente embrulhadas em lençóis brancos, lençóis da cama de casal dela.
Contos de fadas, em que noites, o senhor Libério, meu velho pai taxista num ponto de táxi pertinho de casa, trabalhou durante anos – contava – nos à beira da cama, até que dormíssemos.
Castelos, príncipes e princesas, florestas, 
montanhas e dragões.
Meu pai havia falecido e minha mãe - uma simples dona de casa - precisou arrumar um serviço fora. Foi quando surgiu a ideia de trabalhar como lavadeira e passadeira, pois era só o que sabia fazer. Era o jeito de nos sustentar, eu e meu irmão, que também precisou mudar de vida largando os estudos para trabalhar como garçom em restaurante.
Sendo eu a mais nova, foram os dois que arcaram com os meus estudos. Fiz curso técnico de enfermagem e assim que minha mãe ficou doente, fui eu quem cuidou dela, quando veio a falecer.
Então foi que nesse meio tempo, encontrei um príncipe encantado.  
Com a vinda do meu primeiro filho, cuidei dos afazeres da casa enquanto meu marido trabalhava.
Assim como minha mãe sempre fez, sou eu quem passo a roupa de casa.
Então uma tarde quando estiquei por sobre a mesa, o velho cobertor que um dia na cama, agasalhou meu irmão, colocando um outro pano branco feito de algodão por sobre o cobertor e criteriosamente ligando o ferro à tomada, lembrei da minha mãe que sustentou dois filhos, eu e meu irmão, sob o fogo de um dragão.

terça-feira, 7 de julho de 2015

Lurdinha


Não vou esquecer o que aconteceu com a Lurdinha naquela tarde na escola numa dessas brincadeiras de trocar coisas entre a gente”.
Margarida, a melhor amiga da Lurdinha.

- Que brincadeira é essa? - perguntou a professora quando ouviu Margarida dizer para a Cidinha que ia trocar a blusa de lã dela com a Lurdinha.
- A Lurdinha professora, pediu para trocar a minha blusa pelo estojo de lápis de cor dela. É uma brincadeira que a Lurdinha inventou na hora do recreio - explicou Margarida.
A professora deu de ombros como se não se importasse com o que acabara de ouvir, deu as costas aos alunos da sala de aula e continuou a escrever na lousa, um poema do “Livro do Desassossego” do conhecido poeta português:

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
Fernando Pessoa

Essas trocas aconteciam de um dia para o outro, chegava a virar uma feira de troca de coisas entre os alunos da escola. Rodrigo trocava a bola de futebol pelo moletom do Anderson. Ana Maria trocava a boneca Barbie pelo batom gloss da Fabiana, e assim ficavam todos felizes com suas trocas.
Muitas vezes, as mães vinham reclamar para o diretor da escola por causa dos filhos que apareciam em casa, com coisas dos colegas e que não lhes pertenciam.
- Vai já devolver pro dono o que você trocou - mandava a mãe do Celso.
- Não quero nada de ninguém aqui em casa - esbravejava a mãe da Valquíria.
- A professora sabe disso? - disse certa vez Margarida para a Lurdinha o que a mãe do Rodrigo disse quando apareceu com o moletom do Anderson em casa.
- Se liga, isso aconteceu com o Rodrigo porque a mãe dele é uma chata – respondeu Lurdinha para Margarida.
Acontece, que um dia, Lurdinha levou o livro da Branca de Neve e os Sete Anões que ganhou do seu padrinho de presente de aniversário, para trocar com uma medalhinha que ela viu pendurada no pescoço da Denise e queria usar por um tempo a medalhinha.
- Você quer trocar o meu livro da Branca de Neve por essa medalhinha aí pendurada no seu pescoço? - perguntou Lurdinha apontando para a medalhinha no pescoço da Denise.
Denise foi logo dizendo:
- Não! - para Lurdinha.
Mas Lurdinha insistiu tanto, mas tanto, que Denise topou trocar o livro pela medalhinha. Disse para a Lurdinha, que iria ler o livro em cinco dias e assim, sua mãe nem sentiria falta da medalhinha em seu pescoço.
O que Lurdinha não contava e para espanto dela, é que Denise não devolveria o livro da Branca de Neve e os Sete Anões no dia combinado.
Mas Lurdinha querendo a medalhinha de volta disse:
- É mas não é bem assim Denise. Você tem que devolver meu livro. Trato é trato. E se sua mãe descobrir, vai te dar a maior raspança e mais uma reclamação com o diretor.
- Não, ele é meu; eu quero ele pra mim...
Mas Lurdinha tenta entender, que é só uma brincadeira: é uma troca?!
Denise assim que balançou a cabeça como dizendo um não, Lurdinha então disse:
- Olha só o que eu faço com a sua medalhinha...
Há essa altura, a escola inteira parou na hora do recreio para ver o bate boca entre as duas, ou melhor, o bocão da Lurdinha engolindo a medalhinha que foi da Denise.
Ninguém acreditou no que a Lurdinha havia feito; foi um espanto geral.
- Engoliu a medalhinha! - admirou a turma envolta da discussão.

Como melhor amiga da Lurdinha, nunca pensei que ela pudesse se estrepar, mas eu bem que avisava ela”
Comentou na época, Margarida para os colegas da sala de aula.

- Esse negócio de trocar as coisas entre a gente, um dia não vai dar certo Lurdinha.

O tempo passa e a vida segue em frente. Uns começaram suas carreiras, outros apenas se casam e alguns como eu e a Lurdinha, ficamos pra titia. Nos tornamos amigas depois que saímos da escola, fizemos a faculdade juntas; chegamos a trabalhar numa mesma empresa. Viajamos e até dividimos um namorado, mas isso é uma outra história.
Um dia, Lurdinha me ligou para que eu a acompanhasse em uma consulta médica. Queixavasse de dor nas costas e nos rins.
- Sim, é para abrir o exame Margarida, você me acompanha?
- Tudo bem Lurdinha, eu vou ao médico com você.
Chegamos ao consultório para abrir o exame com o ortopedista.
Assim que o médico abriu o exame, foi constatado no raio X, uma pequena mancha que me fez lembrar toda essa historinha de infância.
- Bom – disse o doutor – é apenas um cálculo renal, está bem aqui - apontando para a chapa - agora, você terá que ir ao especialista para tirar esse cálculo que é mais conhecido como pedra nos rins.
Lurdinha saiu do consultório e a primeira coisa que falou, foi sobre a medalhinha.
- E pensar que parecia uma medalhinha, não parecia Margarida?
- É mesmo Lurdinha. É o tamanho da medalhinha da Denise que um dia lá na escola, você engoliu por causa de uma troca infeliz com o seu livro da estória da Branca de Neve e os Sete Anões que você ganhou do seu padrinho, na data do seu aniversário.
- Você acredita que depois daquele dia, nunca mais troquei nada com ninguém?
- Também pudera Lurdinha, você aprendeu a lição.

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Fotos de infância


Cheguei a minha casa tarde da noite, minha mãe encontrava—se sentada à mesa, na sala de jantar, olhando meu velho álbum de fotos.
Mãe eu não sei como a senhora não se cansa de ver essas fotos antigas.
Viu você aqui na praia com seus primos? Você estava tão bonitinha com o maiô que a Aninha te emprestou, porque você esqueceu o seu em casa. Lembra?
E era toda a vez assim. Mamãe pegava o meu álbum de fotografia, para recordar a minha infância, que eu não estava afim de lembrar.
Fui direto para o meu quarto, me despi e entrei debaixo do chuveiro. Um lanche me esperava na cozinha como sempre. Vesti a camisola e ouvi da sala, meu pai avisar:
Vou dar um passeio com a Thaty e já volto.
Já era tarde para dar uma volta com a minha cadelinha, mas com o calor que fazia ninguém aguentava ficar dentro de casa, até que ouvi um barulho que vinha da escada.
A Thaty apareceu na porta da cozinha, quando sorri para ela e falei:
Oi Thaty minha linda. Tomou bainho hoje?!
Poucos segundos se passaram e me dei conta que meu pai não estava com ela. Corri até o quintal e vi meu pai estirado no último degrau da escada. Não sei como percorrendo os vinte e três degraus da casa, já estava do lado dele tentando virá – lo de barriga para cima. Não pude fazer nada. Meu pai não mais respirava.
Alguns meses se passaram e agora era eu quem estava sentada à mesa, na sala de jantar, vendo meu álbum das fotos de infância.
Lentamente fui virando as páginas e reparei que meu pai não estava em nenhuma das fotos, mas lembro do seu rosto escondido por detrás da câmera fotográfica, com um olho aberto outro fechado, focalizando  meu rosto, pedindo para que eu sorrisse e dizendo:
Olha o passarinho...
 Minha foto de infância com 10 anos de idade, tirada pelo fotógrafo 
da família, meu pai Everaldo da Silva, falecido no ano de 1988.

sexta-feira, 6 de março de 2015

Contos que conto historinhas de blog



O projeto Contos que conto tem como proposta, levar a leitura através da mediação de leitura dentro das salas de aula com professores e alunos. São historinhas de linguagem simples e de fácil compreensão que uma vez contadas, transmitem mensagens que poderão ser discutidas posteriormente, o que possibilita o desenvolvimento da linguagem e da escrita, para a criação de novas historinhas.
Cada historinha contém uma ilustração cheia de cores, que contribui no desenvolvimento da imaginação e a descoberta do desenho, da criatividade para a construção de formas e lugares (tempo e espaço).
Contos que conto são historinhas que saem da mídia eletrônica (blog) para o papel, por isso o nome: Contos que conto historinhas de blog.
Muito se fala em inclusão digital, mas são poucos os que têm acesso ou sabem mexer em computadores.
Por esse motivo, resolvi traze – las no formato de livro com letras grandes de aspecto arejado e agradável de ler. Letras pequenas são cansativas”.
De baixo custo para um público popular disposto à venda não só em livrarias, mas também em bancas de jornal.
Hoje obras como Machado de Assis, Eça de Queiroz são indicadas como leitura nas escolas, para o vestibular.
O projeto Contos que conto, preza pelo trabalho de fotógrafos e ilustradores que usam da sua arte para enriquecer a leitura.
Como foi dito, cada historinha contém uma ilustração, que dá ao texto o ar da graça e que mexe com a imaginação de quem está lendo.

Eu mesma leio somente livros ilustrados, seja com fotos
ou algum rabisco (desenho).
Assista a entrevista deste projeto:
                                                                          

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Senha 596064

Bruna C., patricinha. É assim como chamam Bruna no colégio. Ela se levantou da cama naquela sexta - feira fazendo a maior bagunça no quarto. Quem a vê, pensa que ela é uma pessoa organizada, toda ajeitadinha, mas adora fazer uma baguncinha, como diz a mãe dela, dona Jussara. Mas o que todos não sabem, é que apenas cinco números mudaria o jeito de ser de Bruna C., a patricinha.

- Quem diria?! – disse a mãe da Bruna em tom irônico.
- É, mas temos que dar um jeito na vida desta garota – disse o senhor Cintra, disposto a mudar radicalmente a vida da pequena Bruna. Pequena por ser uma menina frágil, quase sem apetite, disposta a não engordar para manter sua forma física, talvez por vaidade ou para não ficar igual às amiguinhas da escola que se empanturram com as guloseimas da cantina ou fins de semana nas lanchonetes dos shoppings. Que não conseguem durante as aulas de educação física, dar uma corridinha em volta da quadra, que logo se cansam. Ela não.
Bruna só bebe suco natural, não toma refrigerante de maneira alguma. No momento, Bruna frequenta aulas de tênis e desfila no apartamento, que tem um espelho enorme no corredor para ela se exibir - para ela mesma – os looks, que ela combina em cores e estilos: de rock, punk, gótico, princesa, cinderela.  Usa maquiagem que quando o senhor Cintra a vê, faz com que ela tire na hora.
Bruna C. é doida por moda. Pega todas as revistas da dona Jussara e fica o dia todo desenhando as figuras das modelos.
Naquele dia vi quando o senhor Cintra trouxe a pasta executiva do trabalho. Acho aquela pasta legal, porque tem uma trava de segurança onde se coloca uma senha, que se você não souber os números, a pasta não abre. É como um cofre.
Mas o senhor Cintra não usa senha deixando – a desprotegida para quem quiser ver o que tem dentro.
Eu sei por que vejo a Bruna – logo quando o pai chega do trabalho em que ele coloca a pasta sobre a mesa de jantar e Bruna a abre facilmente, sem precisar colocar a senha, nem nada.
- Não mexe aí Bruna Cintra. Se o seu pai te pega... - eu aviso, antes que o pai de Bruna pressente que ela esta ali revirando a pasta  e dá a maior bronca nela.
- Olha só Beto, que caneta. Não é bonita?
Muitas vezes eu a vi fazer isso. Mas naquele dia foi diferente.
Bruna foi para abrir a pasta executiva e não conseguiu. Dei risada que quase urinei nas calças de tão engraçado que foi.
Ela ficou nervosa... Tentou erguer a pasta, mas não conseguiu de tão pesada.
- O que será que tem dentro dela?
Curiosa, Bruna foi perguntar ao pai o que havia dentro da pasta.
- Bruna desta vez você não conseguiu ver o que tem dentro?
- O que tem dentro papai? Não consegui abrir. É aquilo que eu estou pensando?
- É sim, mas parece que você não merece esse presente. Sua mãe reclama que você não coloca as coisas no lugar: roupa jogada pelo corredor, seu quarto sempre uma bagunça. Você não vai acreditar o que aconteceu comigo outro dia quando entrei no seu quarto: levei um tropeção naquela raquete de tênis que quase, eu disse quase dei de nariz no chão...
Quando o senhor Cintra disse que havia tropeçado na raquete, me segurei para não rir. Coloquei a mão na boca e saí de fininho porque eu sei que o bicho ia pegar naquele instante.
- Até amanhã Bruna, te vejo na escola.
- Tchau, Beto.
Depois que o amigo e vizinho da Bruna saiu porta afora dando boa noite a todos, o pai de Bruna deu a ela um sermão e tanto.
- E por falar em tênis, acho que vou cancelar as aulas porque sua mãe disse que a senhorita não tem descido até à quadra para tomar aulas com o professor Vitor. Você pensa que o meu dinheiro é capim?
- Não - respondeu Bruna toda chorosa.
O senhor Cintra sempre gostou de futebol, mas acha o tênis um esporte requintado, feminino. Que o tênis, não é para qualquer pessoa, que não são todos que podem aprender um esporte como este. E outra coisa, no condomínio tem uma quadra, porque não aproveitar. Por isso colocou Bruna nas aulas achando que a filha fosse gostar do esporte. Ele mesmo tomou umas aulas particulares.
- E aí Bruna, você não diz nada?! – disse o pai - vamos jantar vai...

- E o meu notebook? – perguntou Bruna.
- O jantar está na mesa – gritou dona Jussara da cozinha.
- Vamos jantar Bruna, depois a gente conversa – disse o senhor Cintra irado com Bruna.
Depois que todos jantaram, foram para a sala de estar. Dona Jussara ligou a TV para assistir a novela e o senhor Cintra pegou a pasta executiva que estava sobre a mesa e disse à Bruna, mostrando a pasta:
- Eu gostaria que você soubesse um pouco mais sobre o esporte que eu tanto gosto. Você sabia que uma tenista brasileira foi tricampeã em Wimbledon?
- Não, não sabia? Só sei que o Guga comia muita banana nos torneios para não dar câimbras.
O senhor Cintra ao ouvir o que Bruna disse, disfarçou para não demonstrar graça, e ficou mais sério quando falou da senha.
- Vai ser difícil você abrir essa pasta desta vez porque coloquei uma senha, e como você tem tudo de mão beijada ...
-Como assim? - perguntou Bruna sem entender nada.
- Mão beijada, tudo fácil. Você tem de tudo e desta vez não vai ter moleza. Para ganhar seu notebook, é preciso pesquisar.
- Pesquisar o quê se eu não tenho meu próprio computador...
- Se vira, usa o da escola. Na escola não tem biblioteca?
- Tem. Que saco!
- Então, a pesquisa é sobre Maria Esther Bueno e os anos em que ela foi tricampeã. A pasta não vai sair daqui. Ela será sua depois que você souber a senha que são os dois últimos números dos anos que Esther Bueno ganhou os torneios.
Bom, só sei que na semana seguinte, Bruna C. me contou sobre a brincadeira que o senhor Cintra fez com ela.
- Então, a senha de seis números foram os anos em que a Esther Bueno ganhou os torneios em Wimbledon na Inglaterra?
- Isso mesmo Beto. Ele disse que só assim a gente aprende e que não é só praticar o tênis mas saber sobre as vitórias conquistadas dentro deste esporte e quem fez o esporte acontecer.

Bruna C. é uma pessoa melhor: aprendeu que as coisas não são tão fáceis como se parecem. Prometeu não fazer bagunça no quarto dela. Dedicou – se mais ao tênis tanto que participou de campeonatos e recebeu medalhas. Mas o que ela gosta mesmo é de desenhar, tanto que pretende entrar na faculdade de moda para ser uma consultora de imagem e personal stylist.