quinta-feira, 21 de maio de 2015

Fotos de infância


Cheguei a minha casa tarde da noite, minha mãe encontrava—se sentada à mesa, na sala de jantar, olhando meu velho álbum de fotos.
Mãe eu não sei como a senhora não se cansa de ver essas fotos antigas.
Viu você aqui na praia com seus primos? Você estava tão bonitinha com o maiô que a Aninha te emprestou, porque você esqueceu o seu em casa. Lembra?
E era toda a vez assim. Mamãe pegava o meu álbum de fotografia, para recordar a minha infância, que eu não estava afim de lembrar.
Fui direto para o meu quarto, me despi e entrei debaixo do chuveiro. Um lanche me esperava na cozinha como sempre. Vesti a camisola e ouvi da sala, meu pai avisar:
Vou dar um passeio com a Thaty e já volto.
Já era tarde para dar uma volta com a minha cadelinha, mas com o calor que fazia ninguém aguentava ficar dentro de casa, até que ouvi um barulho que vinha da escada.
A Thaty apareceu na porta da cozinha, quando sorri para ela e falei:
Oi Thaty minha linda. Tomou bainho hoje?!
Poucos segundos se passaram e me dei conta que meu pai não estava com ela. Corri até o quintal e vi meu pai estirado no último degrau da escada. Não sei como percorrendo os vinte e três degraus da casa, já estava do lado dele tentando virá – lo de barriga para cima. Não pude fazer nada. Meu pai não mais respirava.
Alguns meses se passaram e agora era eu quem estava sentada à mesa, na sala de jantar, vendo meu álbum das fotos de infância.
Lentamente fui virando as páginas e reparei que meu pai não estava em nenhuma das fotos, mas lembro do seu rosto escondido por detrás da câmera fotográfica, com um olho aberto outro fechado, focalizando  meu rosto, pedindo para que eu sorrisse e dizendo:
Olha o passarinho...
 Minha foto de infância com 10 anos de idade, tirada pelo fotógrafo 
da família, meu pai Everaldo da Silva, falecido no ano de 1988.

sexta-feira, 6 de março de 2015

Contos que conto historinhas de blog



O projeto Contos que conto tem como proposta, levar a leitura através da mediação de leitura dentro das salas de aula com professores e alunos. São historinhas de linguagem simples e de fácil compreensão que uma vez contadas, transmitem mensagens que poderão ser discutidas posteriormente, o que possibilita o desenvolvimento da linguagem e da escrita, para a criação de novas historinhas.
Cada historinha contém uma ilustração cheia de cores, que contribui no desenvolvimento da imaginação e a descoberta do desenho, da criatividade para a construção de formas e lugares (tempo e espaço).
Contos que conto são historinhas que saem da mídia eletrônica (blog) para o papel, por isso o nome: Contos que conto historinhas de blog.
Muito se fala em inclusão digital, mas são poucos os que têm acesso ou sabem mexer em computadores.
Por esse motivo, resolvi traze – las no formato de livro com letras grandes de aspecto arejado e agradável de ler. Letras pequenas são cansativas”.
De baixo custo para um público popular disposto à venda não só em livrarias, mas também em bancas de jornal.
Hoje obras como Machado de Assis, Eça de Queiroz são indicadas como leitura nas escolas, para o vestibular.
O projeto Contos que conto, preza pelo trabalho de fotógrafos e ilustradores que usam da sua arte para enriquecer a leitura.
Como foi dito, cada historinha contém uma ilustração, que dá ao texto o ar da graça e que mexe com a imaginação de quem está lendo.

Eu mesma leio somente livros ilustrados, seja com fotos
ou algum rabisco (desenho).
Assista a entrevista deste projeto:
                                                                          

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Senha 596064

Bruna C., patricinha. É assim como chamam Bruna no colégio. Ela se levantou da cama naquela sexta - feira fazendo a maior bagunça no quarto. Quem a vê, pensa que ela é uma pessoa organizada, toda ajeitadinha, mas adora fazer uma baguncinha, como diz a mãe dela, dona Jussara. Mas o que todos não sabem, é que apenas cinco números mudaria o jeito de ser de Bruna C., a patricinha.

- Quem diria?! – disse a mãe da Bruna em tom irônico.
- É, mas temos que dar um jeito na vida desta garota – disse o senhor Cintra, disposto a mudar radicalmente a vida da pequena Bruna. Pequena por ser uma menina frágil, quase sem apetite, disposta a não engordar para manter sua forma física, talvez por vaidade ou para não ficar igual às amiguinhas da escola que se empanturram com as guloseimas da cantina ou fins de semana nas lanchonetes dos shoppings. Que não conseguem durante as aulas de educação física, dar uma corridinha em volta da quadra, que logo se cansam. Ela não.
Bruna só bebe suco natural, não toma refrigerante de maneira alguma. No momento, Bruna frequenta aulas de tênis e desfila no apartamento, que tem um espelho enorme no corredor para ela se exibir - para ela mesma – os looks, que ela combina em cores e estilos: de rock, punk, gótico, princesa, cinderela.  Usa maquiagem que quando o senhor Cintra a vê, faz com que ela tire na hora.
Bruna C. é doida por moda. Pega todas as revistas da dona Jussara e fica o dia todo desenhando as figuras das modelos.
Naquele dia vi quando o senhor Cintra trouxe a pasta executiva do trabalho. Acho aquela pasta legal, porque tem uma trava de segurança onde se coloca uma senha, que se você não souber os números, a pasta não abre. É como um cofre.
Mas o senhor Cintra não usa senha deixando – a desprotegida para quem quiser ver o que tem dentro.
Eu sei por que vejo a Bruna – logo quando o pai chega do trabalho em que ele coloca a pasta sobre a mesa de jantar e Bruna a abre facilmente, sem precisar colocar a senha, nem nada.
- Não mexe aí Bruna Cintra. Se o seu pai te pega... - eu aviso, antes que o pai de Bruna pressente que ela esta ali revirando a pasta  e dá a maior bronca nela.
- Olha só Beto, que caneta. Não é bonita?
Muitas vezes eu a vi fazer isso. Mas naquele dia foi diferente.
Bruna foi para abrir a pasta executiva e não conseguiu. Dei risada que quase urinei nas calças de tão engraçado que foi.
Ela ficou nervosa... Tentou erguer a pasta, mas não conseguiu de tão pesada.
- O que será que tem dentro dela?
Curiosa, Bruna foi perguntar ao pai o que havia dentro da pasta.
- Bruna desta vez você não conseguiu ver o que tem dentro?
- O que tem dentro papai? Não consegui abrir. É aquilo que eu estou pensando?
- É sim, mas parece que você não merece esse presente. Sua mãe reclama que você não coloca as coisas no lugar: roupa jogada pelo corredor, seu quarto sempre uma bagunça. Você não vai acreditar o que aconteceu comigo outro dia quando entrei no seu quarto: levei um tropeção naquela raquete de tênis que quase, eu disse quase dei de nariz no chão...
Quando o senhor Cintra disse que havia tropeçado na raquete, me segurei para não rir. Coloquei a mão na boca e saí de fininho porque eu sei que o bicho ia pegar naquele instante.
- Até amanhã Bruna, te vejo na escola.
- Tchau, Beto.
Depois que o amigo e vizinho da Bruna saiu porta afora dando boa noite a todos, o pai de Bruna deu a ela um sermão e tanto.
- E por falar em tênis, acho que vou cancelar as aulas porque sua mãe disse que a senhorita não tem descido até à quadra para tomar aulas com o professor Vitor. Você pensa que o meu dinheiro é capim?
- Não - respondeu Bruna toda chorosa.
O senhor Cintra sempre gostou de futebol, mas acha o tênis um esporte requintado, feminino. Que o tênis, não é para qualquer pessoa, que não são todos que podem aprender um esporte como este. E outra coisa, no condomínio tem uma quadra, porque não aproveitar. Por isso colocou Bruna nas aulas achando que a filha fosse gostar do esporte. Ele mesmo tomou umas aulas particulares.
- E aí Bruna, você não diz nada?! – disse o pai - vamos jantar vai...

- E o meu notebook? – perguntou Bruna.
- O jantar está na mesa – gritou dona Jussara da cozinha.
- Vamos jantar Bruna, depois a gente conversa – disse o senhor Cintra irado com Bruna.
Depois que todos jantaram, foram para a sala de estar. Dona Jussara ligou a TV para assistir a novela e o senhor Cintra pegou a pasta executiva que estava sobre a mesa e disse à Bruna, mostrando a pasta:
- Eu gostaria que você soubesse um pouco mais sobre o esporte que eu tanto gosto. Você sabia que uma tenista brasileira foi tricampeã em Wimbledon?
- Não, não sabia? Só sei que o Guga comia muita banana nos torneios para não dar câimbras.
O senhor Cintra ao ouvir o que Bruna disse, disfarçou para não demonstrar graça, e ficou mais sério quando falou da senha.
- Vai ser difícil você abrir essa pasta desta vez porque coloquei uma senha, e como você tem tudo de mão beijada ...
-Como assim? - perguntou Bruna sem entender nada.
- Mão beijada, tudo fácil. Você tem de tudo e desta vez não vai ter moleza. Para ganhar seu notebook, é preciso pesquisar.
- Pesquisar o quê se eu não tenho meu próprio computador...
- Se vira, usa o da escola. Na escola não tem biblioteca?
- Tem. Que saco!
- Então, a pesquisa é sobre Maria Esther Bueno e os anos em que ela foi tricampeã. A pasta não vai sair daqui. Ela será sua depois que você souber a senha que são os dois últimos números dos anos que Esther Bueno ganhou os torneios.
Bom, só sei que na semana seguinte, Bruna C. me contou sobre a brincadeira que o senhor Cintra fez com ela.
- Então, a senha de seis números foram os anos em que a Esther Bueno ganhou os torneios em Wimbledon na Inglaterra?
- Isso mesmo Beto. Ele disse que só assim a gente aprende e que não é só praticar o tênis mas saber sobre as vitórias conquistadas dentro deste esporte e quem fez o esporte acontecer.

Bruna C. é uma pessoa melhor: aprendeu que as coisas não são tão fáceis como se parecem. Prometeu não fazer bagunça no quarto dela. Dedicou – se mais ao tênis tanto que participou de campeonatos e recebeu medalhas. Mas o que ela gosta mesmo é de desenhar, tanto que pretende entrar na faculdade de moda para ser uma consultora de imagem e personal stylist.

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Eleonora, a bibliotecária

Sobrecarregada, muito dedicada, dos livros o pó ela tirava.
A bibliotecária arrumava, derrubava, amassava as capas de livros que não saiam das suas mãos, já cansadas, coitada...
Desesperada, se retirava para almoçar; ainda tinha o resto do dia para trabalhar. Já não aguentava mais ver todos aqueles livros nas enormes estantes da biblioteca.
E se alguém chegasse perto de algum daqueles livros, logo perguntava:
- O senhor procura o quê para ler? 
Então ela corria até o computador para pesquisar no sistema da biblioteca o assunto, título ou autor do livro para ser emprestado.
- Está aqui anotado: 791.456 P295t 2. Ed ex. 3, segundo corredor à direita.
Finalmente chegou a hora de Eleonora bater o cartão de ponto. Este foi o seu último gesto dentro daquela biblioteca. Porém minutos antes, ela fez o que planejava fazer durante anos.
No dia seguinte, apareceu em todas as manchetes de jornais, a seguinte notícia para quem quisesse acreditar:

BIBLIOTECÁRIA INCENDIOU
 A BIBLIOTECA

Texto desenvolvido na oficina de escrita Vôos Literários com Jorge Antônio Ribeiro da Silva

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Sarau


                       
O Senac enviou aos participantes, os agradecimentos.O Sarau aconteceu no dia 14 de agosto no espaço central da unidade Scipião na Lapa. Este blog participou com as poesias: “Resto de Mim”, “Melissa” e “Naomi”; “Strong” e “Sonho de Estela”, versos cantados que podem ser ouvidos através 
do www.facebook.com/lfatimasilva
 


quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Minha próxima refeição

Da janela do meu quarto, avistei o senhor Barbosa vestindo seu terno de linho de cor cinza. A gravata e sapato pretos combinavam com o branco da camisa. O cabelo emplastado de gel brilhava com a luz do sol e o grisalho quase chegando ao branco, ofuscava meus olhos.
Ao aproximar - se da casa, o senhor Barbosa jogou pela grade do jardim, um doce, que caiu entre as roseiras. Eu sabia que era um doce de abóbora, pois estava envolto em papel celofane de listras coloridas, e que eu adorava comprar no mercadinho do qual ele era o dono. Assim, acenou – me a mão. Recuei da janela de onde eu estava. Mal eu sabia que aquele doce seria... minha próxima refeição...

Papai chegou do trabalho inspirado de felicidade. Nunca tinha visto papai daquele jeito. Disse que haveria uma surpresa para nós.
- Onde está sua mãe? – perguntou papai subindo as escadas apressado.
- Na cozinha – respondi. Eu estava na mesinha da sala fazendo o dever da escola.
Antes de papai chegar eu tinha ouvido um barulho alto e forte do motor de um carro. Fui ver do janelão da sala quando o carro estacionou enfrente a portão de casa. Papai saiu do carro que era de cor vermelha.
- Era essa a surpresa? – me perguntei.
Papai desceu as escadas de banho tomado como em outras vezes. O cheiro do perfume que usava me fazia espirrar e me perguntava se eu estava resfriado.
- Serginho, resfriado de novo? 
Nunca disse ao papai sobre o cheiro forte do perfume, que cheirava a casa toda e também pela mamãe, que gostava do cheiro da lavanda.
- “Papai é muito cheiroso” - dizia mamãe para mim.
Assim, papai entrou na cozinha pedindo para que a mamãe não fizesse o jantar naquela noite.
- Matilde, iremos jantar fora – disse ele.
Rara eram às vezes em que íamos jantar fora, a não ser em dia que acontecesse algo novo, como a compra do carro do papai por exemplo.
Sem o carro, iríamos a pé até ao restaurante do senhor Altamiro, passaríamos no mercadinho do senhor Barbosa e papai compraria o doce de abóbora que eu tanto gostava.
Mas desta vez, foi diferente. Não iríamos ao restaurante do senhor Altamiro, e sim no restaurante de um conhecido que papai fizera amizade recentemente quando fomos à festa de aniversário do priminho Eduardo. Senhor Pedro e papai ficaram de conversa a festa inteira e ele convidou papai para conhecer o restaurante.
Sendo assim fomos naquela noite ao tal restaurante. Passamos desta vez de carro, enfrente ao restaurante do senhor Altamiro e do mercadinho do senhor Barbosa, quando um caminhão em alta velocidade cruzou o semáforo e pegou nosso carro em cheio, do qual deu tempo de eu abrir a porta de trás do carro para me salvar. Imediatamente o carro se incinerou. Não deu tempo dos meus pais se salvarem. Logo, chegaram os bombeiros e a polícia. O policial me levou até a delegacia, e dali fui direto para casa. O senhor Barbosa do mercadinho, viu tudo e telefonou para o irmão do papai, o tio Valdir. Contou o que aconteceu e ele veio me buscar.
Fui dormir sem jantar e tentar entender o que aconteceu. Para mim, meus pais estariam esperando para tomar o café da manhã no dia seguinte.
Só que no dia seguinte, avistei o senhor Barbosa da janela do meu quarto.  Recuei da janela, desci as escadas, e não havia ninguém na casa. Estava sozinho e com fome. Fui ao jardim e procurei o doce entre as roseiras. O doce de abóbora que o senhor Barbosa havia jogado pela grade. Abri o doce e comi. E foi esta, minha próxima refeição.