
A verdade é que as pessoas não usam mais relógios
hoje em dia. Você anda pela rua querendo saber das horas, buscando alguém que
esteja usando um relógio, e não aparece ninguém. Chego a sentir ansiedade até
que surge bem na hora, alguém usando um relógio de pulso.
Por sorte, na saída do supermercado vinha em
minha direção, um casal muito simpático, afinal ambos usavam relógios e eu
queria saber das horas.
Ele ostentava um relógio digital e ela usava um
relógio todo em dourado, possivelmente de ouro.
Perguntei para a moça, as horas.
Retirando o celular de um dos bolsos da calça
jeans, logo respondeu:
̶ São onze e vinte.
Surpreso com o gesto dela, não me contive e falei:
̶ Você tem um lindo relógio e achei que você
fosse me dar as horas pelo relógio e não pelas horas do celular.
Ela ficou tão sem graça... e surpresa também.
Então demos risadas, foi quando comecei a
contar sobre o relógio do meu avô Jarbas.
̶ Clóvis, está na hora - ele dizia para mim.
Era a hora de dar corda no relógio.
Puxando o longo bigode, vovô discursava diante
daquele relógio e só parava de falar quando vó Lola gritava da cozinha para que
fôssemos almoçar.
E era assim todas as vezes que eu chegava da
escola. Passava as tardes na casa dos meus avós, até que meus pais viessem me
buscar quase ao anoitecer.
Meus pais trabalhavam na pequena padaria que
foi do meu avô que agora aposentado, deixou de herança para a família.
Fui crescendo dentro daquela padaria ajudando
meus pais e meus pais colaborando com meus estudos na faculdade. Entrei em medicina
tornando – me, um médico com especialização em cardiologia.
Meu pai veio a faleceu e nesta época eu estava
com trinta e sete anos de idade e havia formado uma linda família. Até hoje
sinto remorso por não ter acudido meu pai a tempo. Eu sendo um médico
cardiologista, nada puder fazer. A vida como ela é, costumava dizer uma velha
tia.
Na sala de jantar, vovô Jarbas experimentava o
pedaço de papel que havia acabado de colar no fundo da caixa do relógio.
Deveria ficar bem colado para que não se soltasse.
Eu tive em certa ocasião uma vontade enorme de
saber o que era aquilo, mas acontece que vovô nem deixava que eu chegasse perto
do relógio quanto mais pega – lo na mão.
Após a morte de meu pai, minha mãe vendeu a
padaria, deixei o apartamento onde morávamos e fomos morar todos juntos na casa
de meus avós. Éramos eu, minha esposa e meus dois filhos Leno e Dina, minha mãe
e meus avós, todos morando naquele casarão só para cuidar do vô Jarbas, que adoeceu
e veio a falecer em seguida, ficando mamãe para cuidar da vó Lola.
Como cardiologista, comparei o relógio a um
coração. No relógio você dá corda para funcionar e no coração a corda, é viver
momentos felizes, cheios de emoção. E assim vivíamos felizes naquela casa,
tendo o relógio como testemunha.
Vó Lola faleceu e mamãe mesmo cansada, resolveu
largar tudo, para viajar pelo mundo afora.
Assim começou a briga para ver com quem ficaria
a casa. Saí de fininho.
Voltei a morar no antigo apartamento, que ainda
bem, não o desfiz.
A casa continuou fechada por mais de cinco
anos, e sem que ninguém tivesse tempo para cuidar dela, deteriorava - se com
cupins e umidade nas paredes, dentro e fora da casa.
Após uma cirurgia, saí do hospital decidido a passar
pela casa para recordar os velhos tempos em que fui feliz morando lá.
As chaves do portão e da porta nunca saíram do
molho de chaves que eu sempre carrego comigo. A casa cheirava a mofo e assim
que eu entrei na sala lá estava ele, o relógio de corda do meu avô. Meu coração
disparou ao vê – lo. Era chegada a vez de eu mexer no relógio. Na hora me senti
como uma criança quando recebe um brinquedo. Era preciso dar a corda para que o
relógio voltasse a funcionar.
̶ Clóvis, está na hora – disse a mim mesmo.
Abri com cuidado a pequena portinha de vidro que
guardava as horas - como dizia vovô - e a chave para dar a corda parecia nunca
ter saído do lugar.
Então eu vi que o papel colado no fundo da
caixa do relógio, tratava-se de um cartão de visita com um nome e endereço de um
escritório de advocacia. Tirando o cartão dali com cuidado para não rasgar,
pude ver melhor.
Saindo às pressas, coloquei o relógio no lugar esquecendo-me
de dar corda nele. A caminho de casa, liguei do celular para o tal número.
No dia seguinte estava em Avaré. O filho do Dr.
Rafael Bastos me aguardava. Relembrando as histórias do pai dele, vividas com
meu falecido avô, fomos interrompidos com a presença da secretária carregando
uma pasta com uma porção de documentos. Havia ali um testamento redigido de
próprio punho pelo meu avô, que descrevia uma casa situada à Rua das Rosas na
Vila Mariana. Era a casa dos meus falecidos avós. Lendo o documento disse – me o
advogado, que a casa foi deixada como herança para Clóvis Junqueira.
De volta a São Paulo, esclareci aos
pretenciosos herdeiros, que aquela casa, havia sido deixada para mim.
̶ A casa, olha só, acabei vendendo e o relógio
de corda ficou como relíquia, e quer saber? Funciona até hoje. O papo está bom,
mas preciso ir.
Obrigada por ouvirem esta história que me trouxe
boas recordações.
̶ Mas afinal, que horas são?
A moça olhando no relógio dourado, respondeu:
̶ São vinte para meio – dia.